"Ó crentes, como vós, no intimo do peito / Abrigo a mesma crença e guardo o mesmo ideal. / O horisonte é infinito e o olhar humano é estreito: / Creio que Deus é eterno e que a alma é immortal."
Assim se confessa o poeta no poema inaugural desta que é uma das obras mais polémicas e arrasadoras da literatura portuguesa oitocentista. Publicada em 1885, A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro, não é um libelo ateu, mas antes uma demolidora sátira anticlerical que visa desentulhar a fé das camadas de hipocrisia, dogmatismo e corrupção que a Igreja institucionalizada lhe sobrepôs . Dedicada a Eça de Queirós, a obra ecoa o espírito crítico da Geração de 70 e fere, com a sua musa "estridente e cáustica", as convenções sociais e religiosas do seu tempo .
Através de vinte e oito poemas de uma virulência estilística inaudita, o autor retrata um Deus envelhecido e desiludido, que contempla, com amargura, a opulência e o farisaísmo dos que se arvoram seus representantes na Terra . Dos versos corrosivos contra a cúria romana, apelidada de "bordel da Igreja", às grotescas caricaturas de padres e abades, passando pela crítica à superstição de Lourdes e ao poder temporal do Vaticano, Junqueiro empunha a sátira como uma "espada nua" .
A Velhice do Padre Eterno * é, na sua essência, um grito de revolta contra a deturpação do ideal cristão primitivo e um apelo ao regresso a uma espiritualidade pura, onde a consciência e a razão são os verdadeiros templos . Uma obra-prima do sarcasmo e da invectiva poética que, ao desmontar os ídolos do seu tempo, permanece como um monumento intemporal de irreverência e de paixão pela justiça.