Prato de cerejas
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Sopros De Morfeu
by Lana Cordeiro Mota
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A poesia de Lana Cordeiro é sutil como uma pluma de algodão, que se desmancha ao vento. Seus versos flutuam, pairando acima de tudo o que é concretude e/ou realidade. Por isso, ela escolhe com muita parcimnia o tecido de sua matéria poética: palavras leves, sopradas pelas brisas que moram na casa dos sonhos. Por testemunha, só Morfeu. Ou aqueles que dormem em cumplicidade com o silêncio.
Nesse seu Sopros de Morfeu, a poeta tece um monólogo com o "deus" do sono, contando-lhe nuances do seu despertar, de como vê a casa a sua volta, das sensações que os primeiros raios de sol lhe imprimem. Percebe que ao acordar, todas as coisas ainda dormem: os mares, e também as árvores, cujos ventos demoram para assoprar-lhes as folhas. A poesia de Lana não tem pressa e entra em simbiose com todas as coisas da criação.
O tempo da poesia de Lana também é outro, que não pode ser contado pelos ponteiros do relógio. Ela tanto pode prostrar-se à porta da casa para ouvir os galos e sua impertinência de cantos, por horas ou séculos, como pode ser transportada desse sonho, onde dorme-acordada, para um tempo presente, onde é o estmago que grita, instigado pelo cheiro de café.
Mesmo assim, ela pousa na realidade por raízes aéreas, não chega de rompante. "calafrios vêm me dizer bom dia".

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Pororoca-Cabogó
by Sara Bononi
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Cobogó é uma espécie de tijolo perfurado ou elemento vazado, feito de cimento, utilizado na construção de paredes ou fachadas perfuradas, com a função de quebra-sol ou para separar o interior do exterior, sem prejuízo da luz natural e da ventilação.
Pororoca é vocábulo que advém do Tupi Guarani e quer dizer estrondo, estouro, rebentação. Considerada como a devolução da água doce despejada no mar pelo rio Amazonas, a pororoca provoca estrondo tal, que toda a floresta, como prenúncio, fica silenciosa, aguardando a passagem imponente de suas ondas que podem alcançar altitude de até seis metros, a uma velocidade que pode variar de quinze a trinta quilmetros por hora. Sua causa deve-se à mudança das fases da lua, principalmente nos equinócios quando aumenta a propensão da massa líquida dos oceanos, proporcionando grande barulho. Pode-se prever a pororoca com duas horas de antecedência, pois a força da água vinda da cabeceira provoca um barulho muito forte e inconfundível.
Forte e inconfundível é também a poesia de Sara Bononi, com seus versos em vazantes de invulgar beleza, a fluírem velozes e contínuos, em direção ao rigor de todas as aridezes de novidade literária, e o vigor de sua escrita atende ao chamado dessas securas, e as dessedenta bem, porque "já não há tempo/para olhar sem nitidez."
A autora traz aqui, para compor o título de sua obra, a surpreendente junção dos vocábulos "Pororoca-cobogó", sugerindo-nos o encontro das águas em poesia respiratória, "por todos os poros" do existir, de modo a "caber em onda/depois de correr vento,/implodir manhã lume de lua,/magia em descompassada rima, Odoyá,/ cabelos da menina."
Como um murmúrio convicto de que "o desandar também é caminho", a poesia de Sara embala cactos sob um sol vigilante da "saudade cultivada junto ao vaso de jasmim", feito cicatriz silenciosa e rítmica, a respirar pelos pulmões de cada verso:
"Ser impossível tristeza,/promessa em mármore/reescrita em pegadas na areia,/para em todo verão/ ter chance de sê-la."

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Água Para Borboletas
by Marisa Sevilha Rodrigues
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Escrever é um ato de resolução. Ninguém escreve à toa. Tudo o que pensamos vem em forma de sentimento e palavra e para entender essa ponte escrevemos. Marisa Rodrigues faz isso de modo sintomático e obsessivo – sim, há que existir obsessão na escrita – e tudo o que ela diz é maior que ela. Os poemas em prosa ou prosas fluidas nascem aos borbotões para tentar aplacar o que vem primeiro, o sentimento ou a palavra e com isso falar de sua história, revolta, nascimento, feminilidade, vontade, livramento. Marisa adverte quem lê porque poeta ou não a poesia a transforma. Ela fere de morte os que permeiam seus versos à procura de candura e encontram lacerações. A alma sangra e esse sangramento é palavra. Urbe et orbi devemos saber que a poesia tem uma função dupla: a de ser escrita e de escrever quem a escreve. E de escrever quem a lê. O poema gruda na retina e de lá não sai. Para sempre a emoção da leitura vai ficar no leitor que não se livrará do poema mesmo que não o lembre. Poesia é transcendental e persecutória. Vive enquanto nos lembrarmos dela. Os poemas de Marisa Rodrigues neste Água para borboletas catalisam os sentimentos e torna-os claros. Legíveis. Vivos. Como a ranhura dos dentes e a cicatriz da infância. Perceptível e presente.
Por Thereza Christina Rocque da Motta em 6 de fevereiro de 2018.

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Geografia Perfeita Para Insetos
by Edson Bueno De Camargo
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Segundo Cecilia Camargo, que prefaciou Geografias para Insetos, "ler este livro sem interromper a leitura nos faz sentir como se fssemos as patas dos insetos a explorar caminhos conhecidos, mas nunca devidamente explorados.
É como olhar algo velho com olhos novos. Redescobrir. Cada poema nos leva a enxergar através dos olhos do poeta, por casas, jardins e espaços, um mundo real que se confunde com o mundo onírico. É como se ao refletirmos o poema, pudéssemos ver auras, fantasmas e magia onde antes havia apenas "palavras da pedra... em um cristal de basalto".
A presença da casa, do quintal, da rua de suas memórias, coloca em foco momentos microscópicos ou tão rotineiros que sob outros olhos passariam despercebidos, mas que são revestidos de extrema beleza como: "um cão coleta seu latido/em uma lua descalça/que atravessa a rua molhada/diante de minha casa".
Definitivamente, Edson Bueno de Camargo leva a sério o conselho de Leon Tolstói: "canta tua aldeia que cantarás o mundo" e ainda transcende, pois ao cantar sua geografia perfeita para insetos, canta também as estrelas.

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O Livro De Isólithus
by Patricia Claudine Hoffmann
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Patrícia Claudine Hoffmann escama. Desfolha em Isólithus, personagem-ego, persona-poesia. Patrícia é suas visões, refletidas em Isólithus. O anjo que guarda a palavra azul. Adestradora de vazios, senhora das saídas, poeta habituada ao fazer do amor que não é carne. É poema,
"- Para livrar-te da sede
no fazer dormir das pérolas. "
Patrícia não junta palavras. Ela principia com encantamento e finaliza com sensibilidade, com a magia do poema que nasceu unicamente para ser isso mesmo: Poesia.
(...)
Ler o Livro de Isólithus, para mim que vivo e respiro e me alimento de poesia, foi um mergulho no mundo abissal de uma poeta inteira, pronta, senhora de uma personalidade arrebatadora.
"Quis escrever andaimes mais sólidos
a fim de aperfeiçoar nuvens. "
ou
"Para que aprendas
a entregar os frutos de teu silêncio
aos justos de imaginação. "
(...)
O Livro de Isólithus é para ser lido com fúria e paixão, com amor à arte, com sede. E ele sacia e alimenta como poucos que tenho lido.
(...)
Com a alma exposta, Patrícia Claudine Hoffmann nos presenteia com uma poesia que nos empurra para a paisagem de dentro, onde cada um de nós constrói jardins e promontórios e de onde podemos reinterpretar o mundo, aos olhos da arte.
Rosa Maria Mano,
poeta e escritora

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Ávida Vida
by Maria Elizabeth Candio
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Um livro que se abre como um ventre, trazendo à luz, o que se passa na interioridade vasta de Maria Elizabeth Candio, poeta que parece dançar e cantar enquanto escreve, pois que seus ritmos se espraiam nos envolvendo e nos conduzindo pela vida ávida dos seus cânticos. Sim, uma poesia que se encorpa de encantos simples e raros, em que o tempo e os elementos deslocam os substantivos para a categoria de verbo, não um verbo qualquer, um verbo que substancia sentimentos. É como se nos dissesse: receba estes poemas como dádivas que te vidam.
Na verdade, este Ávida Vida traz uma poeta inteira, lúcida, madura, consciente do que quer e alinhando sua poesia aos aspectos existenciais que unificam um ontem, um agora e um amanhã que se sobrepõem às pequenezas depositadas sobre a vida mundana saltando para a grandeza que todos os seres humanos querem em destaque, nas suas passagens pelo mundo.
Portanto, este não é um livro para se ler de uma vez, é para ser revisitado, porque guarda em cada poema uma intensa gema de cristal que revela mais da vida e isso se evidencia no "Retrato da poeta quando pedra", no seu aviso de que escreve para criar vigas afim de preencher vagas e, de fato, este é um livro rochedo, indestrutível e permanente, marcante na Literatura de um país carente de boa poesia.

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Manuscritos De Água
by Rosa Maria Mano
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Permita-me mostrar a você, caro leitor, pequeno excerto de um texto da Rosa Maria Mano, explicando seu processo criativo, pra começar minha narrativa:
"Sem pensar no assunto, meu processo de escrita, desde o início, começa com uma palavra, uma frase... Busco uma palavra ou ela me busca. E a contemplo, até que seja ideia. Assim, chuva pode ser um pedaço de céu que desaba, pode ser pranto, chamamento, o som primevo, barulho de beijo no vidro da janela, banho cheiroso. A ideia, mais que a palavra em si, é meu instrumento. A palavra se ressignifica, alarga ou contrai, modifica, perpetua. Muitas vezes um poema nasce de uma só palavra que eu pincei no dia. Frequentemente uma imagem sugere uma palavra ou uma frase, como num poema de ontem: a imagem de uma mariposa minúscula, parecendo uma joia em filigrana de prata." (Rosa Maria Mano, descrevendo seu processo criativo em uma Oficina de Escrita...)
Pois é. Um poeta normalmente cria partindo de um estado de consciência que alguns chamam de "estado poético". E atinge o tal estado de formas várias: meditando, consumindo alguma substância, presa de grande emoção, observando a natureza, etc, etc, etc. A maioria precisa de alguma ação e/ou esforço para chegar ali e se manter por tempo suficiente pra esboçar ou escrever um poema. E alguns, raros e privilegiados, VIVEM em estado poético. Rosa pertence a este seletíssimo e abençoado segundo grupo.
Não são apenas as fortes influências de Lorca e outros grandes. Nem a vivência com teatro e arte em geral. É inato, intrínseco, visceral, genético, kármico: Rosa é poeta 24 horas por dia, todos os dias de sua vida. Por isto a poesia jorra copiosamente a partir dela. É privilégio de nós seus leitores, nos deixar embeber dessa seiva abençoada.
Neste belo Manuscritos de Água, Rosa nos apresenta, já na dedicatória, os amores que a conduzem. E nas primeiras palavras já nos mostra a intensidade com que os vive.
A partir dali, os caminhos são tortuosos, conduzindo a muitas praias, beiras de rios, cacimbas e sangas. Nestas paisagens nos sentamos ao lado da querida poeta, que nos mostra as observações que faz: águas doces e salgadas, sargaços, aves, nuvens, plantas.
E partindo dessas observações, nos mostra seus (re)significados: amor obstinado e fiel; esperança infinita; coragem teimosa; indignação justa e muitos outros.
Seus textos são curtos, mas não são rasos. Nem frasezinhas-de-efeito bonitinhas pra ganhar atenção em redes sociais, nem "textões" empolados e academicistas destinados a demonstrar erudições nem sempre verdadeiras. Em uma ou duas frases reside um mundo inteiro de emoções, todas elas intensamente verdadeiras.
É delas que resulta este livro denso e sincero, fortemente emocionante.
Lembro sempre daquela velha canção que diz "love is a battlefield". Poesia também é um campo de batalha, pelo qual Rosa se move, portando seu sabre de luz, determinada a vencer a dor, como deve ser toda mulher brasileira. E nós a acompanhamos, rezando para que seja bem sucedida.
Acredite, é impossível ler Manuscritos de Água sem resgatar de dentro da gente imagens e/ou sentimentos que Rosa descreve, e percebê-los intensamente, deixando que fluam amazonicamente por nossos corpos, cascateando pelos sete buracos de nossas cabeças.

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Haicais Dos Sentidos
by Joana Woo
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Convidada por Marisa Sevilha Rodrigues, curadora do selo Prato de Cerejas, para escrever este livro de haicais, Joana Woo mergulhou nas suas raízes e buscou no seu DNA a essência da construção dessa forma de poetar feito de síntese, silêncio e estalidos na mente e coração.
Os haicais foram criados levando em conta os critérios clássicos de adaptação ao ocidente. O livro tem sete editorias com o total de mais de 100 haicais. As cinco primeiras são uma jornada pelos nossos cinco sentidos: Visão, Audição, Tato, Paladar e Olfato. A sexta é uma aventura no nosso maior e misterioso sentido e a última editoria, denominada de Sem sentido, busca a beleza de sentir a poesia sem se preocupar com o significado ou a sua compreensão.
Joana Woo, em seu Haicai dos Sentidos propõe ao leitor uma viagem de cores, texturas, cheiros, sons e emoções. Para ela, "viver intensamente nossos sentidos é o maior sentido da vida".

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Uma Trincheira Entre O Mar E Os Paralelepípedos
by Jonathan Constantino
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As apresentações são sempre de grandes dificuldades: pressupõem a mediação do outro sobre o objeto de forma escancarada, e com ele os juízos de valor, o gosto, a formação e a trajetória. Fica a encargo do outro, mostrar ou não, e quais e como são os cmodos da casa, o que vai pra debaixo do tapete e qual será o bibel da mesinha de centro da sala.
Não se pode negar a inevitável parcialidade que todos nós leitores temos, mas cá está tentando-se configurar a apresentação do presente livro. Dividido em seis distintas partes, basicamente ordenadas pelo próprio cotidiano e o esgarçar da vida atuam dentro daquilo que se denomina por novíssima literatura brasileira marcada pela presença dos elementos do cotidiano, abandono da pesquisa antropológica, produção individual, bem como a circulação em circuitos menores que abandonam, negam e debocham da "Sagração Acadêmica", centrando-se no correr da própria vida, das relações e circunstancias.
São os espólios do cotidiano, assinalados pelo próprio autor que se fazem presentes nas páginas a seguir: escrever e ser lido torna-se a experiência performática, o lançamento ao mundo, a sedimentação lírica da vida moderna que se projeta, se debate e se quer contínua. Já diziam os marujos que tatuavam andorinhas a cada mil léguas percorridas: al mare!

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Todas As Mulheres Em Mim
by Célia Musilli
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"Todas as mulheres em mim", de Celia Musilli, foi publicado originalmente, em 2010, pela Atrito Arte e Editora Kan, dentro do projeto Tríade. Nele, a autora assume múltiplas vozes abordando temas como o desejo, o amor, a ousadia de viver e se aventurar, com pausas de reflexão sobre a solidão e a morte.
"Todas as mulheres em mim" é um recorte humano a partir do feminino em que a escrita assume um papel confidencial de um diálogo interno que transborda para os leitores. O livro traça um roteiro de impressões dividido em três partes: Paisagens Interiores; Paisagens Exteriores e Outras Paisagens. Intimista, dá voz à Ana, Joana, Alice e outras personagens fictícias que funcionam como alter ego da autora.
O leitor desavisado é cooptado pela voz de suas personagens fictícias e levado para um passeio surrealista, num reino algo mágico, algo fantástico, para ser desbravado ali, dentro do seu livro.

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Mar Nos Pés
by Rafa Barrozo
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A escrita de Rafa primeiro conturba os sentidos, para após, se revelar ao leitor como um lego. Embrenhar-se na desafiadora experiência de remontar os sentidos não só pelo que se depreende do texto...ele nos abre janelas pelas quais podemos ultrapassá-lo, é degustar sabores que aguçam a memória do nosso desejo, diferente em cada um, porém, de mesmo DNA. O autor parece saber que fibrilações potencializam os sentidos de seres desejantes e para eles escreve, atribuindo sabor à lascívia, que agridoce tempera deliciosamente o açoite que é se render a um amor vil, daqueles que se carrega vida afora na memória da pele e só o tempo torna comum tal experiência, tal qual o toque do mar nos pés.
Em seu texto sensações tácteis nos banham, e se nos falta um dos sentidos, como a audição, muitas vezes suprimida pela turba, não nos faltam palavras cheias de viço do poeta para encaminhar nosso olhar, nos fazer focar no que é preciso - "lábios, sinais e gestos, onde " ... dançamos, flutuamos marítimos pela casa..." querendo apenas sentir a sarça ardente (de um amor atemporal) esquentar" para " bailarmos atravessando circenses e marciais os cmodos da casa."
Nesse mar de aparente excessos, bom é sentir que a alma ainda pode se embriagar com a mistura de quintais, galinhas, caboclos, danças e devoção ao amor, onde a magia acontece e ali podemos "nos esvaziar de tudo com o auxílio do vento solto", apenas.
É de coisas simples, comuns, em palavras ritmadas, que Rafael cria seu universo cheio de pistas para epifanias presentes no cotidiano - O vento sempre aparece no quintal, dando vida às roupas no varal.
Nele senti notas da poesia de Manoel Barros, se contaminando pela turba de nosso tempo, em que tudo se contrapõe – silêncio/barulho dos bichos, cavalos/selvagem gentil... vida que corre em paralelo e no laço do poeta, assombra, acalma.
Mas a poesia de Rafa não é só de amor e singelezas, por isto mesmo é potente. Sabe de olhar seco, inquisição, velhice, frio, desgraça. Então, necessária a prece em voz de bichos para não esquecer que nunca é tarde se nos embrenharmos na fluidez delicada de antigos códigos para saborizarmos histórias de amor ao amor, à horta, a tudo que plantamos ou nasce do próprio querer e nos fascina.

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Afogado
by Renato Silva
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"Afogado - Fragmentos nos olhos: o mar" é o resumo de um náufrago na alma onde todas as coisas parecem doer. É um terremoto e uma devastação surreal de sentimentos. Mas é também um romance no escuro, uma luz no azul, um tombo. Sobretudo amante.
Do outro lado a morte, o luto, Deus gritando no pé do ouvido. O duplo. O livro se destaca por ser dividido em três partes e ao mesmo tempo, ser um só.
Tocante, intenso, Renato Silva atravessa a linha do delírio. E nos leva junto com ele, em êxtase.

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Metáforas Do Tempo: A Grande Noite
by Pedro Da Mota Pereira
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Talvez a vida seja curta ou longa demais; e sua linearidade fria comece a se confundir, daí onde era metal e pedra, surge, raízes, ramos e bulbos. Das certezas ao vácuo. Assim se reconfigura aquilo que chamamos de realidade e se reconfigura, formando uma nova teia de sentido. De repente, o que tanto prezávamos se esvai e o sentimento de perda se conforta ao nosso lado.
Qual a novidade?
A obra de Pedro da Mota Pereira, "Metáforas do tempo: a grande noite", está prenhe dessas questões, porém não pretende respondê-las. Por vezes as amplificam até torná-las insuportáveis. Cumpre assim um dos destinos da arte: ir contra a reificação humana.
Num de seus poemas, o autor nos oferece um olhar privilegiado sobre trabalhadores de um porto qualquer, congela o tempo, e vemos gotas d'agua evaporando (em suas palavras: ...se esvaindo). Imediatamente retornamos desta perspectiva de olhar onisciente e caímos... (como o tombo do anjo divino?), sobre nossa própria vida. O eu lírico, assim nos convida a nos dar outra chance.
Dotado de humanismo marcante, "Metáforas do tempo: a grande noite", é orgânico – ainda que digital – e tem grandes requisitos para se tornar livro de cabeceira de seus leitores.

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O Náufrago No Istmo De Wu
by Fernando José Karl
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As escrituras de Fernando José Karl são um patrimnio considerável de sua fértil imaginação. São seus abismos em formas de palavras, assim como suas pinturas lembram paisagens caligrafadas. Suas figurações aludem a coisas que são o que são, mas também podem ser outras, o um é o outro de Rimbaud. Seus mestres são Wallace Stevens, Manuel Bandeira, Sylvia Plath, e, por que não, a chuva.
O náufrago no istmo de Wu espraia espasmos como as notas dissonantes de Charlie Parker. Pegar o pássaro em pleno voo, o onírico em plena deambulação e fazer com isso fábulas insólitas, riscadas, rabiscadas, significadas. Fábulas do reino animal, vegetal e mineral, objetivação de uma escotilha, de um tango, de uma orquestra. O planeta na hora da sesta, do ócio, do sonambulismo criativo que olha pela fresta do olho.
Karl tem razão: só as tempestades não envelhecem no istmo de Wu. Elas viram aluvião. Viram o menino Karl dando cambalhotas, o mundo de pernas ao avesso, e isso é arte, o que se mede sem começo.
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